Portugal perde 187 milhões de m³ de água por ano. E a rutura na sua rua, quem a regista?
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Portugal perde 187 milhões de m³ de água por ano. E a rutura na sua rua, quem a regista?

Queixate2 de julho de 20267 min de leitura

TL;DR

  • A água que sai da torneira em Portugal é segura: 99% das análises de água para consumo cumprem os parâmetros de qualidade, e a adesão aos serviços de abastecimento chegou pela primeira vez aos 90% (ERSAR, RASARP 2025, dados de 2024).
  • Mas quase um quarto da água tratada perde-se antes de chegar a casa. As perdas reais foram de 187,3 milhões de metros cúbicos em 2024 — o equivalente a 8,7 piscinas olímpicas por hora, todo o ano.
  • A causa de fundo é estrutural: as condutas de água são reabilitadas a 0,5% ao ano, quando a meta é 1,5%. A esse ritmo, renovar a rede levaria mais de 200 anos. Reduzir as perdas em 80% pouparia cerca de 158 milhões de euros por ano.
  • O cidadão não vê a estatística. Vê o sintoma: a rutura a jorrar na rua há dias, a pressão que cai, o fontanário avariado, o contador que ninguém lê. Falta o sítio — público, anónimo e rastreável — onde registar isso, câmara a câmara. É para isso que o Queixate existe.

Um sistema que entrega bem — a qualidade

Comecemos pelas boas notícias, que são reais e convém dá-las.

A água que os portugueses bebem é das mais controladas da Europa. Segundo o Relatório Anual dos Serviços de Águas e Resíduos em Portugal (RASARP 2025) da ERSAR — a entidade reguladora do setor —, 99% das análises à água para consumo humano em 2024 cumpriram os parâmetros de qualidade. É um número que se mantém no topo há anos.

Também a cobertura melhorou. A adesão ao serviço público de abastecimento de água atingiu, pela primeira vez, os 90% da população, e a acessibilidade física ao serviço chega a 97%. Ou seja: o país sabe tratar a água e sabe fazê-la chegar quase a toda a gente.

No que toca ao produto final na torneira, o sistema funciona. Não é aí que está o buraco.

99% das análises de água cumprem a qualidade. A adesão ao abastecimento chegou aos 90% pela primeira vez.

O que se perde a meio do caminho

O detalhe que costuma escapar aos títulos é este: entre a estação de tratamento e a sua torneira, muita água desaparece.

O RASARP 2025 volta a lançar o mesmo alerta estrutural que repete há anos: a água não faturada — a que é tratada e introduzida na rede mas nunca chega a ser cobrada, porque se perde em fugas, ruturas ou consumos não medidos — ronda os 27% do total. Em volume, as perdas reais de água atingiram 187,3 milhões de metros cúbicos em 2024.

É um número difícil de imaginar, por isso a própria ERSAR o traduz: equivale a encher 8,7 piscinas olímpicas por hora — não num dia de ponta, mas de forma contínua, hora após hora, o ano inteiro. Água que foi captada, tratada, bombeada e paga com dinheiro público, e que se infiltra no chão antes de servir para alguma coisa.

O custo não é só ambiental. A ERSAR estima que reduzir estas perdas em 80% — combinadas com a entrada indevida de água nos sistemas de saneamento — permitiria poupar cerca de 158 milhões de euros por ano. É dinheiro de tarifas e de orçamentos municipais que hoje literalmente escorre pelo chão.

E houve progresso? Marginal. As perdas reais baixaram apenas 1,3% face a 2023. Ao ritmo atual, o problema não se resolve — arrasta-se.

Porque é que a água se perde: uma rede que envelhece mais depressa do que é renovada

A raiz do problema não é mistério nenhum, e o RASARP mede-a com precisão desconfortável.

As condutas de abastecimento de água em Portugal estão a ser reabilitadas a um ritmo de 0,5% ao ano. A meta técnica recomendada é 1,5% — três vezes mais. Nos coletores de saneamento, é ainda pior: reabilitam-se 0,1% ao ano, e apenas 2% dos coletores com mais de dez anos foram inspecionados nos últimos cinco.

A conta é simples e demolidora: se uma rede se renova a 0,5% ao ano, demora 200 anos a ser inteiramente substituída. Nenhuma tubagem dura 200 anos. O resultado é uma infraestrutura que envelhece mais depressa do que é reparada — e cada ano de atraso significa mais fugas, mais ruturas e mais água a perder-se.

Não é falta de saber fazer. É falta de investimento continuado e, muitas vezes, de prioridade política: as condutas estão enterradas, não se veem, não dão inaugurações. Uma fuga só ganha visibilidade quando rebenta à superfície — e, mesmo aí, nem sempre há para onde a comunicar de forma que fique registada.

Condutas reabilitadas a 0,5%/ano quando a meta é 1,5%. A esse ritmo, renovar a rede levaria mais de 200 anos.

O mesmo padrão nos resíduos

Vale a pena notar que a água não é caso único. O RASARP 2025 mostra o mesmo tipo de folga estrutural na gestão de resíduos: a taxa de reciclagem ficou-se pelos 32% em 2024, longe da meta europeia de 55% até 2030. A recolha seletiva multimaterial cobre 13% e a de biorresíduos apenas 5%, enquanto 55% dos resíduos ainda acabam em aterro.

É o mesmo desenho: um serviço que funciona no essencial, mas que arrasta metas por cumprir e cuja falha quotidiana — o ecoponto cheio, o contentor a transbordar, o monte de entulho ao lado — é, outra vez, visível sobretudo para quem vive na rua.

O cidadão é o sensor em tempo real

Aqui está o ponto que liga tudo. A ERSAR mede o país de cima: uma vez por ano, por indicadores agregados, câmara a câmara. É um trabalho essencial — mas é uma fotografia macro e anual.

O que essa fotografia não capta é o tempo real e o caso concreto:

  • a rutura a jorrar há três dias na esquina, sem ninguém a aparecer;
  • a pressão que desaparece todas as manhãs num bairro;
  • o fontanário público avariado há meses;
  • o contador que nunca é lido e a fatura estimada que não bate certo;
  • a vala aberta e nunca fechada depois de uma reparação.

Estes são precisamente os sinais que antecedem e explicam os 187 milhões de metros cúbicos perdidos. E o melhor sensor que o país tem para os detetar não é um relatório anual — é quem passa ali todos os dias.

O problema é que, hoje, esse conhecimento evapora-se como a água. A pessoa que vê a fuga ou não sabe a quem se queixar, ou queixa-se por um canal que não deixa rasto, ou desiste porque nunca sabe se alguém do outro lado leu. Fica a queixa privada, sem registo público, sem forma de verificar se — e quando — foi resolvida.

O que o Queixate acrescenta

O Queixate é a peça que falta entre o cidadão-sensor e a câmara: um sítio onde qualquer pessoa regista o que vê — a rutura, a fuga, o fontanário avariado, o contentor a transbordar — de forma pública, anónima e rastreável, associada à câmara municipal responsável.

Não substitui a ERSAR nem os serviços municipais de água. Complementa-os: dá visibilidade em tempo real ao sintoma local que os indicadores anuais só veem, mais tarde, em agregado. Cada queixa registada é um ponto no mapa — e um registo público de que o problema existe, de quando foi comunicado e de se foi resolvido.

A qualidade da água que sai da torneira mostra que, quando há sistema e transparência, Portugal entrega. As perdas na rede mostram o que acontece quando o problema fica enterrado e sem quem o registe. Trazer essas falhas à superfície — uma a uma, com nome e câmara — é o primeiro passo para as reparar.

Viu uma fuga, uma rutura ou um fontanário avariado na sua rua? Registe em queixate.pt. É gratuito, é anónimo, e fica no mapa.


Fontes: ERSAR — Relatório Anual dos Serviços de Águas e Resíduos em Portugal (RASARP 2025), dados de 2024, publicado em fevereiro de 2026.

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